24/06/2014 ♦ Gestão de projetosUX

Carta para um Designer Júnior

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Tradução do artigo de Cennydd Bowles, Letter to a Junior Designer, com a permissão de A List Apart e do autor.

Eu admito: você me intimida. Seu trabalho é vivo e imaginativo, muito superior aos meus rabiscos lamentáveis ​​quando eu tinha sua idade. As coisas que eu sofri para aprender, mal fazem você suar. Um dia, você vai ser um designer melhor do que eu.

Mas, por hora, eu posso me agarrar a uma vantagem, a única coisa que me faz mais valioso: eu alcanço resultados. Eu consigo bater os sólidos argumentos de um CEO. Eu posso detectar riscos e complicações com meses de antecedência. No jogo que é o design, eu costumo apostar na cor certa. As pessoas confiam em mim.

Então, se você permitir, talvez eu possa dar alguns conselhos antecipando o que será inevitável.

Desacelere

Você é talentoso. Mas, em sua ânsia de provar isso, às vezes você se apressa em direção a uma solução. Você arranca uma ideia do galho e a coloca no prato antes que ela tenha tido tempo de amadurecer. Não confunda velocidade com precocidade: o mundo não precisa de respostas erradas em tempo recorde.

Talvez seus professores tenham exaltado A Ideia como uma jóia do trabalho criativo; ensinaram você que a ideia é a parte mais difícil. Eu discordo. Ideias não são confiáveis. Elas precisam ser torcidas, espremidas e dilaceradas. Nós temos o raro privilegio do nosso trabalho, muitas vezes, parecer com uma brincadeira: para executá-lo corretamente é preciso desmontar as nossas ideias promissoras e transformá-las em algo melhor.

No começo o processo parece mecânico e desajeitado. Com o tempo, será difícil distinguir a ideia da iteração. Eventualmente, as duas se tornam uma.

Então, vá mais fundo. Desperdice seu tempo livre expandindo suas ideias, mesmo se você tiver certeza de que elas são perfeitas ou inúteis. Olhe atentamente para as decisões que parecem triviais. Eu garanto que você vai encontrar as melhores soluções ao virar a esquina.

Pense nisso

Nós adoraríamos acreditar que o design fala por si só, mas uma grande parte do trabalho é ajudar os outros a ouvir essa voz. Lógica persuasiva – o porquê do seu trabalho – é o que transforma um grande documento em um grande produto.

Se você ainda não conheceu, em algum momento da sua carreira vai conhecer um sacana que quer saber o motivo de cada pixel colocado. Você deve ser capaz de articular uma resposta para essa pessoa, sim, para cada pixel. O que esta linha faz? Bem, ela define. Distingue. Mas por que aqui? Por que a cor? Por que a espessura? “Fica melhor” não será suficiente. Você vai precisar de uma lógica que explique a hierarquia, equilíbrio, gestalt — em outras palavras, formas esotéricas de dizer “fica melhor”, mas formas que transmitam para as partes interessadas que você entende os fundamentos do seu ofício. Da mesma forma, não se esqueça que você deve explicar as alternativas rejeitadas, e o por quê. (Trabalhar assim também vai ajudá-lo a ver se você está no caminho certo ou se está apenas agarrado a uma ideia inicial.) Isto pode parecer uma questão política. E é. Política nada mais é do que a complexa arte de conduzir equipes e pessoas, e quanto mais alto você chegar, mais tempo vai gastar com pessoas.

Modere sua paixão

Suas palavras são importantes: tome cuidado para não se deixar levar. Paixão é útil, mas você será mais eficaz quando demonstrar as evidências por trás de suas crenças, ao invés forçá-las. Linguagem mais suave ganha menos retweets mas melhores resultados. Se você tem um palpite, chame-o de palpite; isso mostra honestidade, e deixa você livre para se enganar sobre suas certezas.

A sua maneira de encarar seu trabalho também vai mudar. Agora design é uma dor. Você vê todos os erros do mundo: produtos estúpidos, erros triviais, projetos ruins apoiados em correções apressadas. A estupidez nunca vai embora, mas com o tempo você aprende conviver com isso. O que importa é a sua capacidade de mudar as coisas. Qualquer pessoa pode se queixar do mundo, mas poucos podem corrigi-lo.

Essa fúria, essa energia, desaparece com o tempo, até que a questão seja escolher quais batalhas você dever se armar e quais se render. Muitas vezes isso significa ir em direção aos maiores problemas. Conforme você avança, sua atenção deixa de ser as ferramentas e técnicas e passa a ser nos valores e na ética. A história da sua indústria é instrutiva: dê-lhe a devida atenção. Afinal, todos os nossos futuros diminuem com o tempo, até que, finalmente, o passado torna-se tudo o que temos.

Você vai perceber que pode ser melhor ajudando os outros a alcançar os resultados do que fazendo tudo sozinho. Isso, claro, é o que chamamos de liderança.

Finalmente, pode chegar um momento em que você percebe que melhora quando pensa menos em design. Trabalho e vida pessoal devem sempre ser parcialmente separados, mas não há dúvida de que as experiências que você tem em sua vida moldam o seu trabalho. Então, por favor, lembre-se de ser um grande ser humano. Viaje o quanto puder. Leia: um bom romance, às vezes, lhe ensina mais do que um livro de design. Lembre-se que existe o mar. Você vai notar a empatia, a sensibilidade, a astúcia e entendimento do seu desenvolvimento torna a sua vida profissional melhor.

Mas você é inteligente, e é claro que percebeu que isso é realmente uma carta aos mais jovem do que eu. E, ao mesmo tempo, é um lamento por minha constante sensação de obsolescência; a angústia de alguns cabelos grisalhos e as tendências emergentes que eu não entendo muito bem. Isso é ligeiramente ridículo na minha idade, mas esse é um mercado um pouco caricato. E você vai herdar tudo, no seu tempo. Boa sorte.

Atenciosamente,

Cennydd.

Tradução do artigo de Cennydd Bowles, Letter to a Junior Designer, com a permissão de A List Apart e do autor.